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Manifesto pela volta das cores nos carros vendidos no Brasil

Por GLAUCO LUCENA

Não sei quanto a você, mas gosto de carros mais coloridos. Muitas vezes fui à concessionária disposto a levar para casa um carro azul ou verde, as minhas preferidas. Mas o vendedor sempre conseguiu me empurrar cores de carros mais tradicionais (no máximo um vermelho), sob o argumento da pronta entrega ou até aquele papo de que essas cores mais discretas ajudam na hora da revenda.

Jeep-Renegade-2019-1024-05

Será que ajudam mesmo? Há alguns anos fiz uma reportagem-teste para a revista Autoesporte. Anunciei dois carros idênticos, Fiat Uno, um prateado e outro amarelo marca-texto (lembra-se dele?). Ambos pelo mesmo preço. O Uno prata teve um pouco mais de procura, é verdade. Mas a conclusão é que eu teria vendido os dois pelo mesmo valor. O prata, um pouco mais rápido.

A pergunta que faço, portanto, é se vale a pena abrir mão de passar anos com o carro da cor de sua preferência, só por causa de uma maior liquidez na hora da revenda. Não é nem o valor de revenda, é só a agilidade na venda. E mesmo que o carro perdesse, digamos, R$ 500 no valor de revenda, compensaria o fato de comprar uma cor que não lhe agrada tanto?

SAIBA MAIS: CARROS BRANCOS SÃO QUASE 40% DO MERCADO GLOBAL

Minha tese aqui é que o comprador deveria exigir cores mais divertidas para seu carro, a não ser que prefira tons mais escuros, ou os manjados branco, prata e vinho. Quem, como eu, viveu a infância nos anos 70, se lembra da infinidade de carros coloridos, inspirados na onda psicodélica. Azul claro, verde limão, laranja, bronze (na VW Brasília era um clássico), amarelo (saudade do Opala amarelo com duas faixas pretas no capô, o carro mais legal que meu pai teve).

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Aposto que muita gente da minha geração adoraria hoje comprar o Ford Fiesta azulão, o Jeep Renegade verde, o Nissan Kicks com teto laranja, o Citroën Aircross marrom, o Fiat Mobi roxo… Alguns, tenho certeza, não compram por não encontrar para pronta entrega. Outros, por medo de não revender com tanta facilidade. Fiquem tranquilos, há gosto para todas as cores, salvo excentricidades como aqueles carros rosados de uma marca de cosméticos.

Outro argumento usado pelos detratores dos carros coloridos é que essas cores mais chamativas acabam cansando. Será mesmo? Pois eu estou cansado é de olhar em volta, no trânsito pesado, no inverno da cinzenta São Paulo, e só ver carros pretos, grafites, pratas… Mesmo o branco já caiu no lugar comum depois de vencer a boba resistência de que era carro de taxista (viu como os mitos caem por terra?).

Suzuki-Jimny-2019-1024-01

A culpa, afinal, é do cliente que não procura ou da montadora que não ousa em sua gama de cores? Acho que é um pouco de cada. Muitas montadoras oferecem cores mais exóticas apenas quando o carro é novidade, para chamar a atenção na mídia e nas ruas. Deveriam insistir mais nessas cores, a meu ver, sobretudo em carros e SUVs compactos, que não combinam com cores sóbrias.

Invejo muito os donos de carros da Mini. Está aí uma marca que ousa na sua palheta de cores, com muito bom gosto. Assim como fico com inveja dos europeus. Lá circulam carros de todos os matizes, pouquíssimos escuros. A Europa passa muitos meses do ano com dias curtos, de tempo frio e nublado. Os carros coloridos ajudam a alegrar um pouco o ambiente sombrio.

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A mais recente pesquisa sobre o tema no Brasil é desanimadora, feita há mais de um ano pela fabricante de tintas PPG. O branco lidera em participação entre os carros 0 km, com 37%, seguido por prata (29%), preto (12%), cinza (10%) e vermelho (8%). Sobram apenas 4% para outras cores. Há viés de alta para o azul e alguns tons de marrom, mas de forma bem tímida. E até de algumas derivações do branco, de tom um pouco mais escuro, quase creme.

Pense nos carros de sonho: Ferrari tem de ser vermelha, Alfa Romeo idem, Lamborghini amarela, Bugatti e BMW azuis, Jaguar verde, Porsche qualquer cor (até branco e preto), Mercedes prata (vá lá). Jipes de verdade têm de ser verde-militar. E por que nossos carros comuns não podem ter cores bacanas também? Nada contra quem compra cores neutras por preferência ou por precaução. Mas fica aqui meu manifesto por mais variedade nas cores de carros em nosso mercado. A paisagem urbana e o humor agradecem!

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Glauco Lucena Ver tudo

Paulistano, nascido em 1967, é jornalista, com formação em Ciências Sociais e MBA em Gestão de Negócios. Desde 1990 atua no setor automotivo. Trabalhou por 24 anos em redações de jornais, revistas e sites, entre eles Autoesporte (Editora Globo), Jornal do Carro (Estadão) e Carsale (UOL).

Recentemente, dentro do Grupo FCA, foi um dos responsáveis pela comunicação da Jeep durante os 3 anos do processo de relançamento da marca no Brasil. Hoje, atua como colunista, consultor, gerador de conteúdo e influenciador digital na área automotiva.

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