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A revolução da mobilidade exige um sério programa de renovação da frota

Especial Maio Amarelo 2: É preciso tirar cacarecos e gambiarras das vias brasileiras com urgência

Por GLAUCO LUCENA

Reforma política, reforma tributária, reforma previdenciária… Quem acompanha o noticiário já deve estar cansado de ler sobre essas reformas urgentes que nunca são concretizadas. Pois o setor automotivo também tem suas “reformas” que se arrastam como propostas há décadas, mas nunca saem do papel. As duas principais são a Renovação da Frota e a Inspeção Veicular, de certa forma interligadas.

Bosch_Cidade_Inteligente

Se elas já eram urgentes nos anos 90, quando começaram a ser discutidas, hoje são cruciais para qualquer estratégia de mobilidade moderna, de controle das emissões e de redução dos acidentes. O Brasil já está atrasado em todas as megatendências do setor automotivo, e ficará ainda mais se não resolver a questão da renovação da frota. Os cacarecos precisam sumir das nossas ruas e estradas. Não haverá Rota 2030 possível sem um sério programa de incentivo à troca de carros e caminhões em mau estado por outros mais novos. E, depois, de uma fiscalização que não permita a circulação dessas “bombas-relógio sobre rodas”.

A idade média da frota nacional é de 9,3 anos, e vem aumentando em função da crise econômica. Na Europa, a média é de 8,3 anos, e nos EUA de 11 anos. Nem estamos tão mal assim na média, mas nossa frota é muito mais descuidada em termos de manutenção do que a dos países mais ricos. E as autoridades de trânsito daqui são muito mais reticentes na hora de tirar de circulação os veículos que não atendem as normas, sobretudo aqueles usados para trabalho. Nossa frota de caminhões nas mãos de autônomos tem idade média de 18 anos. Nas mãos de transportadoras, 10,2 anos.

Caminhão_Precário

Antes que os colecionadores comecem a me crucificar, já digo que os carros antigos bem conservados não são o alvo da “limpeza” nas ruas, e sim os carros em mau estado (e nem precisam ser tão antigos para chegar a esse ponto). Aqueles que dão medo só de vê-los se aproximando no trânsito, cheios de gambiarras para continuar rodando. E não são poucos. Viva os carros de placa preta, mas chega de veículos que emitem fumaça preta ou coloquem vidas em risco. Sabe quantas intervenções a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) faz por ano na cidade de São Paulo relacionadas a carros quebrados? Cerca de 35 mil, ou quase 100 por dia.

Carros quebrados na pista podem causar sérios acidentes. E mesmo que não causem, geram engarrafamentos que afetam o trânsito das grandes cidades. Trânsito congestionado faz os carros poluírem mais. Aumenta o estresse e prejudica a saúde dos envolvidos. Prejudica a produtividade de todos os que estão na rua trabalhando ou a caminho do trabalho. Os prejuízos, em suma, são incalculáveis.

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De que adianta exigir motores menos poluentes e elevados níveis de segurança dos carros novos, se não há qualquer constrangimento para quem circula com as tais bombas-relógio no trânsito. Como pensar em carros elétricos e autônomos nessa condição? Como se alinhar às tendências que vão ditar os rumos do setor automotivo e da mobilidade mundial com essas arapucas rodando em nossas vias?

Pode soar elitista, mas a ideia da renovação de frota é oferecer opções e incentivos para quem não tem condições de comprar um carro mais novo e seguro. Principalmente para quem usa o carro como ferramenta de trabalho. Além disso, os veículos inseguros não discriminam classe social na hora de provocar acidentes fatais. Da mesma forma que atrapalham todos quando provocam congestionamentos – do motorista do carrão às pessoas que estão no ponto esperando o ônibus.

congestionamento

A renovação de frota está prevista no Rota 2030, programa que substituirá o Inovar-Auto ainda este ano. Espero que ela vingue e que seja bem robusta, envolvendo isenções fiscais dos governos em nível federal, estadual e municipal, e também nas margens de lucro das montadoras e concessionárias. Outro efeito benéfico é dar uma aquecida nas vendas de novos e seminovos, gerando empregos em toda a cadeia automotiva.

Segundo o presidente da Anfavea (associação das montadoras), Antonio Megale, as discussões para a renovação no Rota 2030 não preveem inicialmente a inspeção veicular, o que retardaria sua implementação. E também levam em conta as experiências adotadas em outros países, como a Itália, onde funcionou bem, ou na Argentina, onde o programa “Canje” (troca) foi um fiasco. Hoje, a proposta esbarra na pouca margem que o governo tem para oferecer isenções fiscais e na própria crise política, que deixa várias incógnitas a respeito das medidas e dos prazos do Rota 2030.

 

Glauco Lucena Ver tudo

Paulistano, nascido em 1967, é jornalista, com formação em Ciências Sociais e MBA em Gestão de Negócios. Desde 1990 atua no setor automotivo. Trabalhou por 24 anos em redações de jornais, revistas e sites, entre eles Autoesporte (Editora Globo), Jornal do Carro (Estadão) e Carsale (UOL).

Recentemente, dentro do Grupo FCA, foi um dos responsáveis pela comunicação da Jeep durante os 3 anos do processo de relançamento da marca no Brasil. Hoje, atua como colunista, consultor, gerador de conteúdo e influenciador digital na área automotiva.

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