Ir para conteúdo

A era da performance está em franco declínio

Especial Maio Amarelo: O desempenho tende a ser um aspecto cada vez menos valorizado na escolha do carro

Sim, eu gosto muito de carro. Sim, é bem divertido andar numa estrada sem limite de velocidade, como algumas que existem na Europa. Mas sejamos realistas: cada vez mais o desempenho do carro perde espaço na lista de prioridades dos compradores. É claro que ninguém quer passar por apuros na hora de fazer uma ultrapassagem numa estrada de mão dupla ou de subir uma serra com o porta-malas carregado. Fora isso, pouco importa a velocidade, a aceleração e a potência. E digo mais: as marcas quer têm no desempenho esportivo o seu maior apelo terão de se reinventar, ou perderão a razão de ser.

Não é por acaso que a BMW já trabalha intensamente em sua divisão elétrica, a Mercedes fará o mesmo a partir deste ano e a Audi é uma das que mais investe em modelos autônomos. A sueca Volvo já virou a chavinha para o futuro elétrico desde que foi comprada por chineses. Elas sabem que não dará para viver da esportividade de seus modelos atuais.

mercedes_eq
Submarca EQ, da Mercedes-Benz, será exclusiva para modelos elétricos. Marcas de performance já se preparam para a transição para outro modelo de mobilidade

A situação é complicada para as marcas de performance em qualquer dos cenários que se analise, seja de curto, médio ou longo prazo. Já é complicado hoje em dia, com megacidades abarrotadas de carros, e com radares ativos nos períodos em que se poderia acelerar um pouco mais (madrugadas ou feriados prolongados). As melhores estradas no Brasil têm velocidade máxima de 120 km/h, e muitos radares à espreita. Não é diferente na maioria dos países, salvo raras exceções, como as autobhanes alemãs.

As limitações físicas para acelerar se somam às novas demandas dos motoristas por conectividade, versatilidade e uma posição ao volante menos cansativa, o que tem levado uma legião de consumidores para os SUVs. Dizem que quem se acostuma a essa posição mais elevada (menos deitada), com mais espaço para as pernas, dificilmente volta para um carro mais baixo. Eu conheço vários casos assim. Resultado: pesquisas já mostram o desempenho descendo a ladeira na lista de prioridades.

Toyota_ePalette
Toyota e-Palette, exibido em janeiro na CES de Las Vegas: módulos autônomos de vários tipos dominarão o trânsito do futuro

A médio prazo, essa lista de prioridades continuará se invertendo. Novas gerações não têm o mesmo fetiche pelo carro e pela velocidade como as anteriores. Muitos vão preferir andar de carona em carros de aplicativos, absortos em outras atividades durante a viagem, mais preocupados em chegar com segurança ao seu destino. A fiscalização por câmeras mais sofisticadas será ainda mais implacável com os infratores, o que tende a reduzir a velocidade média das viagens urbanas ou rodoviárias. Carros autônomos começarão a conviver cada vez mais com os não-autônomos, o que endurecerá as regras de trânsito. Haverá uma fase de transição, onde cada vez mais ficará provado que os “carros-robôs” se envolvem em menos acidentes que os conduzidos por humanos.

Dirigir e pisar fundo, só em clubes e parques temáticos

Agora viajemos para 2040, ou 2050 para países não tão ricos (caso do Brasil). Bob Lutz, ex-chefe de produto da GM, com passagens por Chrysler, BMW e Opel, escreveu recentemente um artigo no qual decreta o fim da condução humana num prazo de 20 anos. E ele, com 85 anos, é famoso por ter uma das melhores bolas de cristal da indústria. Isso vale para carros, caminhões, ônibus, táxis, motos… Na visão dele e de outros futurólogos, a mobilidade se dará por módulos de transporte autônomos, de vários tamanhos.

nurburg
Lugares como Nurbürgring, na Alemanha, serão cada vez mais comuns para quem quiser sentir o prazer de dirigir como antigamente. Serão os haras automotivos

O cidadão chamará o serviço num aplicativo. O módulo chegará à sua localização, depois entrará numa pista expressa, alinhado com outros módulos, todos em velocidade constante. No máximo haverá uma faixa expressa (mais cara) para quem quiser viajar em velocidade mais alta, e que também será usada por módulos de saúde e segurança (ambulâncias, policiais e bombeiros do futuro).

A bordo dos módulos, o passageiro poderá ler, dormir, jogar, trabalhar ou até ingerir bebidas alcoólicas (por que não?). Perto do destino, o veículo sairá da via expressa, reduzirá a velocidade em vias vicinais, até chegar ao destino, onde a pessoa será tarifada pelo próprio aplicativo. Ter o seu próprio carro-módulo na garagem será um luxo para poucos. Nesse futuro não tão distante, o ato de dirigir será restrito a locais próprios para esse fim. Clubes ou parques temáticos on-road ou off-road, onde os pais levarão os filhos para pilotar como antigamente, como fazemos hoje com cavalos em haras e clubes hípicos. Ou onde amigos irão para se divertir a bordo de esportivos hi-tech ou em carros e motos do passado.

E as montadoras, como ficam nesse cenário? Num sistema de velocidade constante, sem ultrapassagens, a performance deixa de ser um valor de marca. Outras coisas serão valorizadas nesses veículos autônomos, como conforto, silêncio, tecnologias de bordo, design interno (por fora serão todos muito parecidos). E esse processo já começou, embora não pareça. Sim, ainda há várias marcas lançando carros mais ágeis e velozes do que nunca. Mas há cada vez menos gente dando importância para isso.

esferico
Goodyear, com seu pneu esférico “inteligente”, já sinaliza para os futuros módulos de condução autônoma. Eles podem até ser velozes, mas não passarão essa sensação aos ocupantes

Glauco Lucena Ver tudo

Paulistano, nascido em 1967, é jornalista, com formação em Ciências Sociais e MBA em Gestão de Negócios. Desde 1990 atua no setor automotivo. Trabalhou por 24 anos em redações de jornais, revistas e sites, entre eles Autoesporte (Editora Globo), Jornal do Carro (Estadão) e Carsale (UOL).

Recentemente, dentro do Grupo FCA, foi um dos responsáveis pela comunicação da Jeep durante os 3 anos do processo de relançamento da marca no Brasil. Hoje, atua como colunista, consultor, gerador de conteúdo e influenciador digital na área automotiva.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: