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Prepare-se! Os empregos no setor automotivo vão mudar radicalmente

Por GLAUCO LUCENA

Hoje, Dia do Trabalho, é dia de refletir como será o trabalho no setor automotivo num futuro próximo. E uma revolução já está em curso. Há mais de um século, a produção e as vendas de veículos não param de crescer no mundo. Mas como na teoria do Big Bang do universo, essa expansão terá um limite, e dará lugar a um período de retração. De acordo com estudo da consultoria IHS Markit, esse ponto limite está bem próximo. A previsão é que as vendas na América do Norte, Europa, China e Índia, hoje na casa de 80 milhões de veículos, caia para 54 milhões até 2040. América Latina, África, Oceania e parte da Ásia não entraram na conta, mas não devem afetar muito esse cálculo de 32,5% de queda nas vendas. O que terá forte impacto sobre os empregos no setor automotivo.

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Tradicionais empregos em chão de fábrica estão sendo reduzidos drasticamente pela automação, e sofrerão o impacto da queda global de produção

Dá para imaginar a quantidade de fábricas ociosas quando o mercado global encolher a esse nível? Por sinal, hoje já há muitas trabalhando longe de sua capacidade máxima, inclusive no Brasil. Será inevitável o fechamento de fábricas em nível global ao longo das próximas duas décadas, afetando absurdamente o nível de emprego na indústria. Para complicar, as fábricas sobreviventes terão de ser mais enxutas e eficientes, o que significa um nível ainda maior de automação.

Empregos na indústria se perderão, sim, e em toda a cadeia automotiva. Mas outros surgirão para compensar. Em primeiro lugar, é preciso entender os motivos da queda de vendas globais. Segundo a IHS, o principal é que um contingente enorme de pessoas vai deixar de ter carro próprio (ou reduzirá o número de carros da família) e passará a usar quase diariamente serviços como Uber e afins, ou serviços de compartilhamento. Aliás, muitos jovens em idade de dirigir nem se importarão em tirar sua habilitação. Usarão apenas transporte público ou aplicativos.

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Lojas da Tesla usam conceitos de butique semelhantes aos da Apple, Samsung ou Nespresso

Portanto, haverá uma frota muito maior de carros de aplicativos nas ruas, mas não o suficiente para compensar o número de pessoas dispostas a não ter carro próprio. Na prática, haverá menos carros sendo vendidos, mas os que saírem das lojas ficarão muito mais tempo circulando do que parados em garagens, o que faz todo o sentido do ponto de vista financeiro.

Já deu para notar algumas grandes vertentes de emprego? Empregos como motorista profissional. Empregos de todo o tipo nos serviços de aplicativo de transporte (atendentes, programadores e outras áreas de back office). Cursos de formação de motoristas profissionais, com grau de destreza e atendimento muito maior do que as auto-escolas de hoje (algo parecido como os exigentes cursos de formação dos motoristas de táxi britânicos). Empregos na área de logística e manutenção de serviços de compartilhamento.

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Renault acaba de lançar no Brasil aplicativo para compra online do Kwid, o que gera mais empregos na área de TI, e menos nas lojas

Com carros circulando com mais frequência, haverá demanda muito maior para manutenção. E manutenção rápida e competente, pois um motorista profissional não pode ficar sem sua ferramenta de trabalho. Boxes de atendimento rápido substituirão as oficinas de concessionárias e grandes centros automotivos.

Por falar em concessionárias, elas não serão nada parecidas com as de hoje. As compras online vão ser a grande maioria. Em lugar de grandes concessionárias, haverá butiques de relacionamento com os clientes, e pontos de test-drive diferenciado – uma verdadeira experiência de marca, bem diferente das atuais voltinhas no quarteirão.

Ou seja, vendedores como os de hoje darão lugar a atendentes especializados na marca, com excelente formação e salários fixos (as comissões deixarão de existir). E haverá atendentes especializados em atender a nova legião de motoristas de aplicativos. Outro emprego que será valorizado será nas áreas de tecnologia e de atendimento online dos sites de vendas.

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Concessionária Nissan em Atlanta (EUA) já traz novo conceito de atendimento voltado para clientes da era digital

E que tipos de carros serão vendidos daqui a 20 anos? Segundo a projeção do IHS, 19% serão totalmente elétricos e 14% serão híbridos. Os outros 67% ainda usarão motores a combustão, mas de baixa emissão, focados mais na eficiência energética do que no desempenho. Afinal, já haverá um grande contingente de carros autônomos e semi-autônomos nas ruas, com um controle maior sobre o fluxo contínuo nas vias, sem muito espaço para ultrapassagens.

Esse grande número de carros híbridos, elétricos e autônomos também vai gerar muitos empregos em fornecedores automotivos de alta tecnologia. E muita gente será empregada na área de TI, serviço e manutenção de vias “inteligentes”. Enfim, que venham novos empregos que reponham as perdas nos tradicionais chão de fábrica e chão de loja.

Glauco Lucena Ver tudo

Paulistano, nascido em 1967, é jornalista, com formação em Ciências Sociais e MBA em Gestão de Negócios. Desde 1990 atua no setor automotivo. Trabalhou por 24 anos em redações de jornais, revistas e sites, entre eles Autoesporte (Editora Globo), Jornal do Carro (Estadão) e Carsale (UOL).

Recentemente, dentro do Grupo FCA, foi um dos responsáveis pela comunicação da Jeep durante os 3 anos do processo de relançamento da marca no Brasil. Hoje, atua como colunista, consultor, gerador de conteúdo e influenciador digital na área automotiva.

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