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Setor automotivo precisa de mais mulheres em cargos de liderança

Questão não é apenas justiça de gêneros, mas também de necessidade de novos estilos de gestão

Por GLAUCO LUCENA

Eu sei, o tema é delicado, mas precisamos falar sobre o machismo em tudo que envolve o universo automotivo. E hoje, Dia Internacional das Mulher, é uma ocasião perfeita para isso. AutoBuzz sempre defendeu a necessidade de uma reinvenção das montadoras e das concessionárias, de todo o modelo de negócio na era pós-digital. Essa virada só será possível com uma presença feminina mais forte nos cargos de comando de todas as áreas do mundo do automóvel. Mas, para isso, o modelo mental machista deste setor precisa mudar radicalmente.

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Mary Barra, CEO global da GM, está comandando a virada digital da centenária empresa americana

Por que é tão importante ter mulheres com poder decisório nessa indústria? Ora, elas são praticamente a metade do público comprador de carro, e o porcentual seria ainda maior se a cultura machista não estivesse tão arraigada. Mas há um motivo ainda mais fundamental explicada pela Psicologia: mulheres são mais digitais, enquanto os homens são mais analógicos. Isso significa que elas possuem os atributos que o setor precisa para não sucumbir nessa nova economia que está em franca revolução.

Quais seriam esses atributos? Por razões antropológicas, mulheres são mais multifuncionais, colaborativas e intuitivas. E são menos centralizadoras, individualistas e hierarquizadas. Trabalham melhor em equipe, têm mais network e senso de comunidade, são mais antenadas que os homens. Tudo que a economia digital exige, as mulheres têm mais condições de oferecer num papel de liderança: foco na experiência, nos serviços, no atendimento, no encantamento, no engajamento. O momento do mercado é mais de emoção, intuição, sensação e colaboração, e menos de razão, previsibilidade, competição e precisão (especialidades dos homens desde os tempos das cavernas).

Mulheres começaram a assumir postos-chave em algumas montadoras, mas ainda são exceção, e por isso chamam tanta atenção – e até atraem certo preconceito. Há mais de quatro anos, Mary Barra comanda com sucesso a ressureição da GM após a empresa ter sido salva da falência pelo governo americano (ela é a CEO global do grupo). No Brasil, Ana Theresa Borsari luta há mais de dois anos para recolocar nos trilhos a operação da Peugeot, e agora também da Citroën. Em outras áreas industriais, comerciais e governamentais, há muito mais mulheres em posições de liderança do que na indústria automobilística.

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Ana Theresa Borsari, da Peugeot-Citroën, é a única diretora geral de montadora no Brasil

Pesquisas recentes feitas com mulheres que trabalham no setor automotivo (nos EUA pela Automotive News e no Brasil pela Automotive Business) apresentaram resultados muito parecidos: falta de mulheres em postos-chave, salários inferiores, falta de reconhecimento e oportunidade, tarefas menos relevantes e muito preconceito. A pesquisa americana foi ainda mais a fundo na questão e mostrou casos de assédio moral e sexual contra mulheres em empresas automotivas e concessionárias, além de uma cultura machista que repele mulheres e impede a ascensão das que insistem em trabalhar nessa indústria.

O machismo no setor automotivo vai muito além de preconceitos contra as “Donas Marias” no trânsito, ou o surrado “vai pilotar fogão”. Vai além dos calendários com mulheres nuas em borracharias e das modelos em trajes sumários no Salão do Automóvel. Ele está na expectativa que o dono de um carrão tem de fazer sucesso com as mulheres na porta da balada. Nos caubóis a bordo de picaponas que brincam de laçar mulheres nas festas de peões. No dono de concessionária que só seleciona vendedoras se elas forem “bonitonas”. No mecânico que quer arrancar mais dinheiro da “madame que não entende nada de carro”. No taxista que faz gracejos (ou coisa pior) para a passageira. No organizador de eventos que escolhe moças do “livro rosa” para atender diretores e clientes vips. No executivo de montadora que leva parceiros comerciais e jornalistas a prostíbulos após uma reunião de trabalho, às vezes sob olhares assustados de colegas mulheres.

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Modelo com QR Code pintado no corpo, com informações técnicas do carro. Esse tipo de abordagem em salões automotivos precisa acabar

Estou nesse setor há quase três décadas e já presenciei muitas situações humilhantes para mulheres. Sei que a condição melhorou muito, mas ainda é um universo refratário ao sexo feminino, num momento em que a presença delas é necessária por questões não só éticas e morais, mas para o próprio futuro do negócio. O sexismo não está no repertório das novas e futuras gerações de consumidores. O mundo evoluiu, e continua a evoluir em alta velocidade. Velocidade que, infelizmente, vem faltando nas mudanças do mundo do automóvel, salvo raras exceções. Não estou pregando que os homens, com seu jeito se ser, já não são mais importantes para o setor. Longe disso. Mas a presença feminina é fundamental não só por uma questão de justiça de gêneros, mais sobretudo em funções capazes de redefinir os rumos da indústria e do comércio automotivo.

Glauco Lucena Ver tudo

Paulistano, nascido em 1967, é jornalista, com formação em Ciências Sociais e MBA em Gestão de Negócios. Desde 1990 atua no setor automotivo. Trabalhou por 24 anos em redações de jornais, revistas e sites, entre eles Autoesporte (Editora Globo), Jornal do Carro (Estadão) e Carsale (UOL).

Recentemente, dentro do Grupo FCA, foi um dos responsáveis pela comunicação da Jeep durante os 3 anos do processo de relançamento da marca no Brasil. Hoje, atua como colunista, consultor, gerador de conteúdo e influenciador digital na área automotiva.

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