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VW Virtus e Fiat Cronos levantam a velha questão: carros globais ou regionais?

Por GLAUCO LUCENA

A era da globalização dava a pinta de que iria unificar produtos em nível mundial. De fato, carros globais começaram a se espalhar e proporcionar ganhos de escala jamais experimentados pela indústria automobilística. Porém, aos poucos, as montadoras foram percebendo os limites da globalização. Alguns tipos de carros funcionam globalmente, outros não.

Se analisarmos os dois principais lançamentos deste início de ano no mercado brasileiro, perceberemos duas estratégias totalmente distintas. O Fiat Cronos, a exemplo do Argo, foi desenvolvido no Brasil, e vai servir ao restante da América Latina. Já o Volkswagen Virtus, sedã derivado do Polo, tem outra filosofia. Ambos são típicos carros globais, projetados da Alemanha para o mundo. Qual estratégia é a mais acertada?

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Fiat Cronos: projeto local aposta em estilo e espaço, mas também no custo-benefício

Primeiramente é preciso analisar o histórico dos carros globais no mercado brasileiro. E a História mostra que eles funcionam muito bem em modelos de maior valor agregado. Sedãs médios (Civic e Corolla), SUVs (Compass, HR-V), picapes médias (Hilux e S10), monovolumes (Fit). Todos esses modelos são sucesso no país, e pouco mudam em relação às versões vendidas na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia.

Há modelos globais que já não rendem tanto em segmentos mais premium, mas o problema é a queda do segmento como um todo, não o fato de ser um carro global. Golf, Audi A3, Focus e outros já tiveram momentos de glória por aqui, mas hoje foram claramente preteridos pelos SUVs.

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VW Virtus é o típico projeto desenvolvido da Alemanha para o mundo

Já nos segmentos de entrada, os modelos globais não se dão tão bem, e o caso mais evidente disso é o VW Up. Um modelo muito elogiado por seu conjunto mecânico e sua concepção moderna, mas que não repercutiu tanto junto aos clientes brasileiros. Seu grande rival, o Fiat Mobi, é um produto local, e já vende mais, embora aquém do esperado. O memso vale para o Renault Kwid, que não chega a ser local (nasceu na Índia), mas foi projetado para países emergentes. Alguns compactos globais (exceto EUA, que não consomem compactos) chegaram a ir bem no Brasil entre os anos 1990 e 2000, como Corsa, Fiesta, Ka, C3 e 206, mas essa fase parece superada.

Pense nos carros compactos mais vendidos hoje no Brasil. A dupla Onix e Prisma foi projetada por aqui pela GM. A Hyundai poderia produzir o i20, mas preferiu uma receita nacional com a linha HB20. Os campeões de venda anteriores ao Onix, Palio e Gol, foram feitos para o Brasil, assim como Fox, EcoSport e tantas outros hits de venda.

Com a dupla Polo e Virtus, a VW está indo na direção oposta à das outras marcas que atuam no segmento de entrada. Ela volta a bater na tecla de carros globais, que não funcionou muito bem com outros projetos alemães, como o Up e o Golf. Será que vai dar certo com a nova dupla?

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Vendas do VW Polo vem surpreendendo, já que não é dos compactos mais acessíveis

Por enquanto está dando certo com o Polo, com vendas médias mensais na casa de 5 mil unidades. Aparentemente, o hatch (com preços entre R$ 50 e R$ 70 mil), vem agradando a clientes que acham os hatches médios muito caros e não se encantaram com a febre dos SUVs. O Virtus deve ter um efeito parecido entre os fãs de sedãs médios. Pelo visto, a VW encontrou uma boa equação para fazer vingar no Brasil seus novos modelos globais, mesmo de porte quase compacto.

Abaixo dessa faixa de preço, outras demandas começam a entrar na equação do cliente: relação custo/espaço, custo/versatilidade, consumo ou meramente o custo. A dupla Argo e Cronos vai por essa linha, tanto que a maior surpresa no lançamento do sedã foi o preço partindo de R$ 54 mil, R$ 6 mil a menos que o Virtus. O Argo também ganhará versões mais acessíveis, agora que o Palio saiu de cena.

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Fiat Argo deve ganhar versões mais baratas agora que o Palio saiu de cena

Portanto, tanto Fiat quanto VW souberam definir bem a estratégia para seus produtos. A Fiat com modelos regionais, com maiores pretensões de volume, e a VW com carros globais, com mais tecnologias e valor agregado, mesmo no segmento de compactos. A surpresa é o Polo estar vendendo tanto. O motivo parece ser o fato de ele estar num degrau um pouco acima dos demais hatches compactos, sem tanta concorrência de preço. Ponto para a VW!

Glauco Lucena Ver tudo

Paulistano, nascido em 1967, é jornalista, com formação em Ciências Sociais e MBA em Gestão de Negócios. Desde 1990 atua no setor automotivo. Trabalhou por 24 anos em redações de jornais, revistas e sites, entre eles Autoesporte (Editora Globo), Jornal do Carro (Estadão) e Carsale (UOL).

Recentemente, dentro do Grupo FCA, foi um dos responsáveis pela comunicação da Jeep durante os 3 anos do processo de relançamento da marca no Brasil. Hoje, atua como colunista, consultor, gerador de conteúdo e influenciador digital na área automotiva.

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